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Felicidade Clandestina - Reunião de 25 contos da brasileira de origem ucraniana Clarice Lispector, "Felicidade clandestina" traz a linguagem intimista. Baixar o livro aqui: clarice_lispector_felicidade_clandestina_e_outros_contos Nascida Chaya Pinkhasovna Lispector (em russo: Хая Пинхасовна Лиспектор) . 25 Livros de Clarice Lispector para Baixar em PDF. Redação 4 Comentários Clarice Lispector Felicidade Clandestina. Baixar PDF: GoogleDrive / Yandex.

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No entanto, também Daniel tinha sua lógica. Ou, pelo menos, explicitar. Nem a fome nem a miséria de alguém comoviam-no mais do que a falta de estética. No momento mais grave de minha vida eu estava ridícula, dizia-me o olhar penalizado de Daniel. Mas José, é mais ou menos isso que eu tenho! Mas, meus senhores, eu existo, eu juro que existo! Agora eu o compreenderia. O navio se afasta rapidamente Sou uma mulher grave e séria, meus senhores. Ele elogiou o texto. Clique no nome do livro para fazer o download. Depois o que vai ser de minha luz? Veja se dorme. E para ele eu caminhava. As guas do mundo. Nos primeiros momentos, para meu espanto, nada compreendi do que falavam Eu obedecia. E principalmente se ela soubesse que esforço lhe custava escrever Saiba mais sobre tudo o que acontece nesse conto agora mesmo! Enquanto isso, o dono do vinhedo aprendeu a gostar da bebida.

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Autor: Alessandra Fernandes de Azevedo. Coautor es : Maria Cristina Weitzel tavela. Estructura Curricular. Datos de la Clase. Propor os seguintes exercícios para os alunos: 1 Qual o foco narrativo do conto? Comprove sua resposta com um trecho do texto. Opinión de quien visitó.

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Denuncia opiniones o materiales indebidos! Opinión El campo debe contener hasta caracteres. Municipio -- Selecciona Mas é no sentido mais antigo da palavra que Clarice Lispector é glamourosa: como uma feiticeira, literalmente encantadora, um nervoso fantasma que assombra todos os ramos das artes brasileiras. Seu feitiço cresceu exponencialmente após a morte. Nos idos de , teria soado como exagero afirmar que era o escritor mais importante do Brasil moderno. O que importa é o amor magnético que inspira nos seus admiradores.

Para eles, Clarice é uma das maiores experiências emocionais de suas vidas. Mas seu glamour é perigoso. É bruxaria. Essa mitologia foi poderosamente impulsada pela internet, a ponto de poder ser hoje qualificada de ramo menor da literatura brasileira. Durante quase duas décadas, ela e o marido, o diplomata Maury Gurgel Valente, viveram no exterior.

Embora fizesse visitas regulares ao Brasil, só voltaria para ficar em Nesse intervalo, lendas floresceram. Nos oitenta e cinco contos aqui reunidos, Clarice Lispector invoca, antes de tudo, a própria escritora.

Mas falar de Clarice Lispector é falar de Clarice, um simples nome pelo qual é universalmente conhecida; é falar da mulher em si. A sua é uma arte que nos faz desejar conhecer a mulher; e ela é uma mulher que nos faz querer conhecer sua arte.

Esta obra fora do comum oferece novas evidências do Espinoza que ela leu quando era estudante, uma influência que iria ecoar durante toda a sua vida. À medida que a artista amadurece, a dona de casa envelhece. Quando, em sua própria vida, o casamento e a maternidade substituem a menina precoce, seus personagens também amadurecem.

Quando o seu casamento fracassa, quando seus filhos deixam o. Esta obra é o registro da vida inteira de uma mulher, escrito ao longo da vida de uma mulher. Como tal, parece ser, em sua abrangência, o primeiro registro do gênero em qualquer país. A história delas só havia sido escrita em parte. Outras — Gabriela Mistral, Gertrude Stein — tinham, como muitos escritores homens, suas próprias companheiras.

Clarice Lispector, como estes contos deixam claro, conheceu intimamente estas barreiras. Seus personagens lutam contra concepções ideológicas sobre o lugar próprio da mulher na sociedade. Preocupam-se com dinheiro. Confrontam-se com o desespero que desemboca na bebida, na loucura ou no suicídio.

Até os anos , a própria Virginia Woolf, nos países de fala inglesa, raramente figurava nos manuais escolares. Mas veio papai, muito sério e alto, com pensamentos próprios também, sobre O mal foi a coincidência de matéria. Mas é um tipo diferente de assertividade. Na arte como na vida, nem sempre isso representa muito. Muitas vivem em silêncio. A peça termina quando é queimada como feiticeira.

Mas ver esta obra desde a perspectiva do que veio depois é perder a sua novidade histórica. Como é que Clarice Lispector — logo ela — conseguiu triunfar? Nasceu em 10 de dezembro de , numa família judia do oeste da Ucrânia. Era uma época de caos, fome e guerra racial.

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Os restos dilacerados da família chegaram a Alagoas em Apenas dois anos depois de chegar à. Os estudos de Direito deixaram poucas marcas em Clarice. Três meses depois, seu pai faleceu aos cinquenta e cinco anos de idade. No início de , ela se casou com um gentio, algo quase sem precedentes para uma moça judia no Brasil. No final daquele ano, pouco depois de ter publicado o primeiro romance, ela e o marido deixaram o Rio de Janeiro. Em um curto espaço de tempo, portanto, deixou sua família, sua comunidade étnica e seu país.

Mas, apesar de suas desvantagens, talvez o exílio — toda esta série de exílios — explique como é que ela conseguiu escrever. Sua origem de imigrante deixou-a menos suscetível às ideias feitas da sociedade brasileira.

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Tinha dois filhos, mas também contava com ajuda doméstica o tempo todo. Isto significava algumas horas livres todos os dias: um teto todo seu. O mesmo ocorria com toda mulher brasileira da classe do seu marido. A experiência de Clarice com ambas ressoa por toda a sua vida.

Mas me ocorreu logo uma anedota de humor negro. Novos temas exigem uma nova linguagem. O leitor — sem falar no pobre tradutor — é frequentemente apanhado na armadilha de seus padrões quase cubistas. Mas quando reexaminada começa, aos poucos, a se dissolver. Nestes contos, o divino irrompe em vidas comuns cuidadosamente vigiadas. Os compositores modernos expandiram as leis da harmonia tradicional. Como jornalista profissional de assuntos femininos, ela se deleitava com a aparência de suas personagens.

Virando as palavras pelo avesso, conjurou um mundo inteiramente desconhecido — conjurando, também, a inesquecível Clarice Lispector: uma Tchekhov feminina nas praias da Guanabara. O triunfo relógio bate 9 horas. Uma pancada alta, sonora, seguida de uma badalada suave, um eco. Depois, o silêncio. A clara mancha de sol se estende aos poucos pela relva do jardim. Vem subindo pelo muro vermelho da casa, fazendo brilhar a trepadeira em mil luzes de orvalho.

Encontra uma abertura, a janela. E apodera-se de repente do aposento, burlando a vigilância da cortina leve.

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Luísa continua imóvel, estendida sobre os lençóis revoltos, os cabelos espalhados no travesseiro. O calor do sol e sua claridade enchem o quarto. Luísa pestaneja. Franze as sobrancelhas. Faz um trejeito com a boca. Abre os olhos, finalmente, e deixa-os parados no teto. Aos poucos o dia vai-lhe entrando pelo corpo. Ouve um ruído de folhas secas pisadas. Uma criança corre na estrada, pensa.

De novo, o silêncio. Diverte-se um momento escutando-o. É absoluto, como de morte.

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Naturalmente porque a casa é retirada, bem isolada. Um soar de passos, risadas, tilintar de louças que anunciam o nascimento do dia em sua casa? De repente seus olhos crescem. Luísa acha-se sentada na cama, com um estremecimento por todo o corpo. Olha com os olhos, com a cabeça, com todos os nervos, a outra cama do aposento.

Levanta o travesseiro verticalmente, encosta-se a ele, a cabeça inclinada, os olhos cerrados. Rememora a tarde anterior e a noite, a atormentada e longa noite que se seguira e se prolongara até a madrugada. Ele foi embora, ontem à tarde. Levou também o criado que viera com eles. O silêncio da casa estava explicado.

Ela estava só, desde a sua partida. Tinham brigado. Ela, calada, defronte dele. Ele, o intelectual fino e superior, vociferando, acusando-a, apontando-a com o dedo. Ouvia ainda suas palavras. Desde que a conheço nada mais produzo!

Sinto-me acorrentado. Acorrentado a seus cuidados, a suas carícias, ao seu zelo excessivo, a você mesma! Pense bem, abomino-a! Havia sempre a ameaça de sua partida. Luísa, a essa palavra, se transformava. Dessa vez ele zangara, como das outras, quase sem motivo. Luísa interrompera-o, dizia ele, no momento em que uma nova ideia brotava, luminosa, em seu cérebro. E a casa ficara em silêncio. Ela parada no quarto, como se tivessem extraído de seu corpo toda a alma. Esperando vê-lo surgir de volta, enquadrar-se na moldura da porta o seu vulto viril.

Mas o silêncio se prolongara infinitamente, rasgado apenas pelo sussurro monótono da cigarra. A noite sem lua invadira aos poucos o aposento. A aragem fresca de junho fazia-a estremecer. Como viveria agora? Perguntava-se subitamente, com uma calma exagerada, como se se tratasse de qualquer coisa neutra.

Repetia, repetia sempre: e agora? Percorreu os olhos pelo quarto em trevas. Torceu o comutador, procurou a roupa, o livro de cabeceira, os vestígios dele. Nada ficara. Pela madrugada, amolecida pela vigília e pela dor, os olhos ardentes, a cabeça pesada, caiu numa meia inconsciência.

Soam 11 horas, compridas e descansadas.

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Tudo imobilizou-se desde ontem, pensa Luísa. Continua sentada na cama, estupidamente, sem saber o que faça. Fixa os olhos numa marinha, em cores frescas.

Nem nunca notara o quadro. Com certeza ele zangou-se e foi dormir no aposento contíguo. Corre, empurra sua porta. Vai à mesa onde ele trabalhava, remexe febrilmente os jornais abandonados. Acha apenas uma folha de papel de seu bloco de notas.

Ela tem asas, mas em parte alguma pousa. Com estas palavras arranho uma chaga. O que ela sempre sentira, vagamente apenas: mediocridade. Fica absorta. Apoia-se à parede. Silenciosamente chora. Chora até sentir-se lassa. Vai até a pia e molha o rosto.

Trança os cabelos, prende-os para cima. Olha-se no espelho e parece uma colegial. Abre as janelas de uma vez.

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E a claridade penetra num ímpeto. Parece que até o relógio bate mais vigorosamente. Luísa queda-se ligeiramente surpresa. Inclina-se pela janela. Na verdade nada disso notara. Sempre vivera ali com ele. Ele era tudo.

Só ele existia. Ele tinha ido embora. Tinham vida própria. Com ele aprendera a tortura sic as ideias, aprofundando-as nas menores partículas. Preparou café e tomou-o. E como nada tivesse para fazer e temesse pensar, pegou umas peças de roupa estendidas para a lavagem e foi para o fundo do quintal, onde havia um grande tanque. Parou, desfranziu a testa e ficou olhando para a frente.

Uma brisa doce arrepiou-lhe os fiozinhos da nuca, secou-lhe a espuma nos dedos. Luísa terminou a tarefa. O trabalho fizera-lhe. Sentia um calor Subitamente surgiu-lhe uma ideia. Aquele banho improvisado fazia-a rir de prazer. Um momento ficou séria, imóvel. De repente, teve um sorriso, um pensamento.

Ele voltaria. Um morno raio de sol envolveu-a. Ele voltaria, porque ela era a mais forte. Aconteceu simplesmente. Sempre fui sossegada e nunca dei provas de possuir os elementos que Daniel desenvolveu em mim. Nasci de criaturas simples, instruídas naquela sabedoria que se adquire pela experiência e se adivinha pelo senso comum. Vivemos, de minha infância até meus catorze anos, numa boa casa de arrabalde, onde eu estudava, brincava e movia-me despreocupadamente sob os olhares benevolentes de meus pais.

Até que um dia em mim descobriram uma mocinha, abaixaram meu vestido, fizeram-me usar novas peças de roupa e consideraram-me quase pronta. Aceitei a descoberta e suas consequências sem grande alvoroço, do mesmo modo distraído como estudava, passeava, lia e vivia. Mudamo-nos para uma casa mais próxima da cidade, num bairro cujo nome, juntamente com outros detalhes posteriores, silenciarei. Consideravamme bonitinha, e meu corpo forte, minha pele clara causavam simpatia.

Eu apenas esperava que tudo corresse bem, embora nunca me tomasse de contentamento se assim sucedia. Aos dezenove anos encontrei Jaime.

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Casamo-nos e alugamos um apartamento bonito, bem mobiliado. Vivemos seis anos juntos, sem filhos. E eu era feliz. E, seu temperamento pouco ardente, eu o considerava de certo. Vivia facilmente.

Nunca dedicava um pensamento mais forte a qualquer assunto. Eram feitos apenas para distrair, pensava eu. Às vezes, melancolia sem causa escurecia-me o rosto, uma saudade morna e incompreensível de épocas nunca vividas me habitava. Noto agora que certa apatia, mais do que paz, acinzentava meus atos e meus desejos. Lembro-me que Jaime dissera uma vez, um pouco emocionado: — Se nós tivéssemos um filho Respondi, desatenta: — Pra quê?

Denso véu isolava-me do mundo e, sem o saber, um abismo distanciava-me de mim mesma. E assim continuei até que contraí febre tifoide e quase morri. Minhas duas casas se mobilizaram e num trabalho de noites e dias salvaram-me. Mal me alimentava, irritava-me com simples palavras. Passava o dia recostada sobre o travesseiro, sem pensar, sem me mover, presa por anormal e doce languidez. Imagino antes que forçava minha fraqueza para conservar as pessoas ao redor de mim, como na fase da doença.

Quando Jaime chegava do trabalho, meu ar de fragilidade acentuava-se propositalmente. Talvez tenha sido o começo. Pela primeira vez davam-me uma oportunidade de ver com meus próprios olhos. Pela primeira vez isolavam-me comigo mesma. Pelas cartas que naquela época escrevi e lidas muito depois, observo que um sentimento de mal-estar se apoderara de mim. Em todas elas referia-me à volta, desejando-a com certa ansiedade.

Isso, porém, até Daniel. Falo daquela sua fisionomia de minhas primeiras impressões, bem diversa do conjunto a que depois me habituei. Mas eram outros Sei que ele sorria, apenas isso.

De quando em quando, surge-me qualquer traço seu, isolado, daqueles anteriores. Seus dedos curvos e compridos, aquelas sobrancelhas afastadas, densas. Mais nada. É que ele me dominava de tal forma que, se assim posso dizer, quase me impedia de vê-lo. Martirizava-me com acusações, desprezava-me e, magoada, partida, fixava-o em mim vivamente. Nunca se dirigira a mim, nem eu o notara particularmente. Sobre o trabalho. Um estudante de óculos, após o primeiro instante de silêncio e de reserva que se formou, retrucou-lhe friamente que antes de tudo trabalhar era um dever.

Saiu da sala, deixando o estudante indignado. Compreendi que Daniel os desprezava e irritei-me porque também eu era atingida. Vendo-o, imperceptivelmente punha-me em guarda, os olhos abertos, vigilantes. Daniel era o perigo. E para ele eu caminhava. Ele conversava com um homem magro, vestido de preto. Os dois fumavam, falando sem pressa, envoltos nos seus pensamentos a tal ponto que nem me viram entrar. Afinal, refleti desculpando-me, a sala pertencia aos hóspedes.

Nos primeiros momentos, para meu espanto, nada compreendi do que falavam Gradualmente distingui algumas palavras conhecidas, entre outras que eu jamais ouvira pronunciadas: termos de livros.

Suas palavras deslizavam sobre mim, sem me penetrar. Agora Daniel falava de si mesmo. Você justifica sua inutilidade com uma teoria qualquer. Eu os escutava, estarrecida. Quando Daniel disse-me que eu falava da Bíblia, tomei-me do terror de Deus, mesclado no entanto a uma curiosidade forte e vergonhosa como a de um vício.

Por isso tudo, a minha história é difícil de ser elucidada, separada em seus elementos. Porque despertei simultaneamente mulher e humana.

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Que sei eu? Escutei-os, cerca de duas horas. Meus olhos fixos doíam e minhas pernas, na imobilidade, ficaram dormentes.

Quando Daniel olhou-me. Era assim que Daniel falava comigo. E assim conheci Daniel. Sei apenas que fui eu que o procurei. E sei que Daniel se apoderou progressivamente de mim. Minha atitude de humildade diante dele era o meu agradecimento ao seu favor Como eu o admirava. Hoje compreendo-o. Dos que possuem a terra num segundo, os olhos fechados. E, como a se compensar dessa impossibilidade de realizar, ele, cuja alma tanto ansiava por se expandir, inventara outro caminho onde sua inatividade coubesse, onde pudesse estender-se e justificar-se.

Realizar-se, repetia, eis o mais alto e nobre objetivo humano. Como se necessitasse de tal programa E esse estado era o seu auge. Porque quando tudo se diluía, apenas na sua memória restava algum vestígio. Nunca se concedia longo repouso, apesar da esterilidade dessa luta e por mais extenuante que fosse. Quando o conseguia, vibrava no ódio, na beleza ou no amor, e sentia-se quase pago. Tudo servia-lhe de partida. Esse dueto consigo mesmo era o reflexo de sua essência, descobria, e por isso continuaria por toda a sua vida Só isso e atingira aquilo a que sua tendência o guiava: o sofrimento.

Parece louco. No entanto, também Daniel tinha sua lógica. E afinal só por isso ardia Daniel: por viver. Apenas, seus caminhos eram estranhos. De tal modo entregava-se ao sentimento criado e de tal modo este se tornava forte que ele chegava a esquecer a sua origem provocada e alimentada. Esquecia que ele próprio o forjara, nele se embebia e dele vivia como de uma realidade. Desse homem a quem invejava, no entanto.

Quando seu padecimento se avolumava demais, lançava os olhos em socorro para esse tipo que, por contraste com sua própria miséria, parecia-lhe belo e perfeito, cheio duma simplicidade que para ele, Daniel,. Era sempre esta a força oposta que apresentava a si mesmo quando atingia o extremo doloroso de sua crise.

Permitia-se um pouco de equilíbrio como uma trégua, mas que o tédio logo invadia. Vivia neste ciclo. E, agora sei, tanto procurou me esmagar e humilhar-me, porque me invejava. No entanto, ingênua, nele me ofuscava exatamente sua tortura. Mesmo o seu egoísmo, mesmo a sua maldade assemelhavam-no a um deus destronado — a um gênio.

Hoje, tenho pena de Daniel. Quanto ao futuro, temia-o demasiado porque conhecia bem seus próprios limites. E o maior mal que Daniel me fez foi despertar em mim mesma esse desejo que em todos nós existe latente.

Em alguns acorda e envenena apenas, como no meu caso e no de Daniel. A outros conduz a laboratórios, viagens, experiências absurdas, à aventura. À loucura. Sei agora qualquer coisa sobre os que procuram sentir para se saberem vivos.

E quase sempre decepcionante. E quantas vezes quase com tédio Agora eu o compreenderia. Pouco sei sobre o amor.

Apenas lembro-me que o temia e o procurava. Contava-lhe, obediente, pequenos fatos passados. E terminava por dizer, com aquele ar só seu, mistura de desejo contido de rir, de cansaço, de desdém benevolente: — Muito bem, bastante feliz Mas nada lhe retrucava.

Um dia falei-lhe sobre Jaime e ele disse: — Interessante, muito normal. Revolucionavam-me, envergonhavam-me no que eu tinha de mais oculto.

E como sabia humilhar-me. Chegou a estender suas garras a Jaime, a todos os meus amigos amassando-os como algo desprezível. Ele falava, eu ouvia. E eu pensava. Horrorizava-me o mundo novo que a voz persuasiva de Daniel fazia-me vislumbrar, a mim que sempre fora uma quieta ovelha. Eu fingia rir, fingia obedecer por brincadeira, como a desculpar-me perante os amigos de outrora.

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Perante os meus próprios olhos, por admitir tamanho jugo. Nada, porém, era mais sério para mim. Ele, impassível, retocando-me como para um ritual, insistia, grave: — Mais langor no olhar As narinas mais leves, prontas para absorver profundamente Eu obedecia.

Deixe que minha voz seja o seu pensamento. Eu ouvia. Aquela voz lenta terminou por arder na minha alma, revolvendo-a profundamente. Caminhara longos anos pelas grutas e de repente descobria a radiosa saída para o mar Sim, gritei-lhe uma vez mal respirando, eu sentia! No entanto era a verdade. Agora eu renascia. Vivamente, na dor, nessa dor que dormia quieta e cega no fundo de mim mesma. Tornei-me nervosa, agitada, mas inteligente.

Os olhos sempre inquietos. Jaime veio me visitar, passar dois dias comigo. Ao receber seu telegrama, empalideci. Eu tinha vergonha de Jaime. Sob o pretexto de que desejava experimentar um hotel, reservei num deles um quarto.

E isso mais me aproximou de Daniel. Foram dois dias horríveis. Quando ele partiu, finalmente, entre aliviada e desamparada, concedi-me uma hora de descanso, antes de voltar para Daniel.

Tratava de adiar o perigo, mas nunca me ocorrera fugir. Eu devia partir. Falei com Daniel. Ele riu baixinho. Por quê? Caí em mim mesma, num desânimo pesado que me deixou lassa e vazia por uns momentos. Sim, era forçoso reconhecer, ele jamais se perturbara sequer com minha presença.

Mas, de novo, aquela sua frieza como que me excitava, engrandecia-o aos meus olhos. Nunca mais, nunca mais, pensei assustada. Ele ergueu os olhos e, diante de meu rosto angustiado, entrefechou-os, analisando-me, compreendendo-me. Houve um longo minuto de silêncio. Eu esperava e tremia. Sabia que esse instante era o primeiro realmente vivo entre nós, o primeiro que nos ligava diretamente. O sangue latejava-me surdamente nos pulsos, no peito, na testa. A um pequeno movimento de Daniel, explodi quase num grito, como se ele me tivesse sacudido com violência: — E se eu voltar?

Fixou os olhos em mim e progressivamente seus traços se transformaram. Eu sabia que para Daniel se apiedar de mim, eu deveria estar ridícula. Nem a fome nem a miséria de alguém comoviam-no mais do que a falta de estética. No momento mais grave de minha vida eu estava ridícula, dizia-me o olhar penalizado de Daniel. Ficou em silêncio. Acendeu o cigarro sem pressa. Olhou-me bem no fundo dos olhos e num meio sorriso concluiu: — Eu a odiaria no dia em que nada mais tivesse a lhe dizer.

Era a primeira vez, porém, que ele me recusava claramente, a mim, meu corpo, tudo o que eu possuía e que lhe oferecia de olhos fechados. Ele teve um imperceptível movimento de impaciência.

Antes de me retirar, beijou-me. Porque fazia-o por mim. E o meu desejo era que ele sentisse prazer, que se humanizasse, se humilhasse. E eu voltara para Jaime, definitivamente. Retomei a vida anterior. No entanto movia-me como uma cega, numa espécie de sonolência que apenas se sacudia de mim enquanto eu escrevia a Daniel.

Nunca recebi palavra sua. Nada aguardava mais. Jogos vorazes Livros Digitais. Os portões do inferno Livros Digitais. Facebook Twitter Google. Avaliações sobre o O tempo. Enviar Publicar! Entrar com o Facebook. Senha Esqueceu sua senha?